** "As únicas pessoas que me agradam são as que estão loucas: loucas por viver, loucas por falar, loucas por salvarem-se." JACK KEROUAC. * Percorrer o CAMINHO é enfrentar e lutar contra os seus próprios medos.
*É conheceres pessoas nesse percurso de todas as idades, cantos do mundo, profissões e estratos sociais, com todas as motivações únicas para fazê-lo ou nenhumas em particular, sem quaisquer intenções de julgamentos ou juízos de valor sobre os outros.
* É dares-te conta que ficares desligado do mundano e do quotidiano é saboroso e ficares a refletir porque o mundo não está imbuído do espírito do CAMINHO pois teria muito mais a ganhar. * É travares uma amizade fortuita com um casal espanhol das Canárias, os quais te acolheram de braços e corações abertos na sua jornada e com uma guerreira alfacinha de gema, com tom melífluo e que foi a tua muleta nas horas de aflição, de forma tão natural e sincera, que essas memórias e vivências nunca se apagarão da tua vida.
* É caminhares 6, 7 e 8 horas por dia, com uma mega mochila às costas, à chuva, ao frio, ao calor, pelas estradas, bosques, montes, sofrendo, rindo, refletindo, conversando, convivendo, conhecendo, amando, chorando, até chegares ao albergue, qual oásis ali plantado, tomares um duche e ficares rejuvenescido de novo, com a alma limpa.
* É ali dormires e mal, rezando para que o/a urso(a) do dia anterior não fique no teu beliche ou na cama ao lado, senão lá se vai o teu descanso noturno, vendo pessoal a aplicar a técnica do Louis de Funés.... na certeza porém que quando fores para casa, até irás sentir saudades dele(a)s.
*É aprenderes que os termos compeed, betadine, agulha, vaselina, halibut, meias sem costuras também se vão começar a aplicar a ti.
* É começares a ter a noção de que durante a tua caminhada, qualquer desvio de 100 metros que seja, para a fruta, café ou local para descobrir, passa a ser uma difícil e dúbia escolha. * É a passo de tartaruga conhecer cada pedra, cada bosque, cada monte, cada igreja, cada ponte.
* É andares com as meias, cuecas, calças ao de penduro na mochila para veres o milagre de as conseguires enfim secar. * É sentires e carregares toda a força e todo o ânimo quando mais precisavas dos teus familiares, amigos e grupo de malucos para conseguires lá chegar, .
* É reconheceres a Kms de distância o olhar alucinado e o andar já meio torcido do(a) peregrino(a).
* É alcançares por fim a Catedral de Santiago, entrar triunfante na Praça do Obradoiro, deixando aí os teus sentimentos se libertarem livremente.
* É no fim de contas empreenderes uma viagem dentro do teu próprio ser...
* Se o CAMINHO é tudo isto e haja quem lhe chame Loucura, então faço questão de pertencer de corpo e alma a essa sã loucura! Manuel Sousa (Para Vós em especial Auxi, Germán, Carla, Margarida, e tantos outros "malucos(a)" que se cruzaram connosco nesta jornada inesquecível...).
** "Avistamos ao longe o topo da Catedral e tentamos seguir o nosso instinto, finalmente entramos no átrio da Praça Obradoiro... Foi uma sensação indescritível, uma mistura de sentimentos mas uma enorme alegria pois o nosso objetivo estava cumprido. Torna-se emocionante ver as outras pessoas que chegam, se cumprimentam, e que se abraçam e choram. Desta aventura só vos posso dizer que foi duro, mas espetacular ao mesmo tempo, é uma experiência fantástica que recomendo pois sentimos e partilhamos coisas do Caminho que não dá para descrever... só mesmo vivendo-as..." Sónia Pimenta no seu diário de bordo. * FOTO-REPORTAGEM DOS 3 DIAS.
** Saímos de casa em autonomia total, destino Sé do Porto, a chuva ameaçava ficar mas depois de abandonar a Sé, o São Pedro deu-nos tréguas.
** Passamos pela magnífica ponte romana de Vilarinho, sobre o Rio Ave. Logo de seguida o Sérgio lembrou-se de furar....
** Chegada a São Pedro de Rates pelas 9H45.
** Chegada a Barcelos e durante este trajeto a Sónia queixou-se de dor no joelho, uma espécie de cãimbra que quase a fazia desistir e estragar a aventura, fizemos uma pausa, uns alongamentos, com mistura de voltaren, a coisa foi abrandando e lá continuamos até Barcelos.
**Saímos com próximo objetivo Ponte de Lima, que alcançámos pelas 15H00, almoçando na famigerada Tasca das fodinhas.
** Esperava-nos a mítica serra da Labruja, com um trajeto brutal, desde andar com a bina às costas, em subidas íngremes e cheias de pedregulhos...
** Finalmente chegamos ao ponto mais alto, iniciando a descida até Rubiães, fim da primeiro dia.
** Com 105 kms nas pernas, demos entrada no albergue privado "O Ninho" que previamente tínhamos reservado, fomos muito bem recebidos pela D. Maria que nos tratou como se fôssemos da casa. Este albergue tem umas condições muito boas e é muito acolhedor.
** Depois de nos acomodarmos e de um merecido banho, chegam ao albergue mais 9 ciclistas, um grupo de betetistas de Matosinhos/Sr.ª da Hora. Também ali encontrei uma cliente minha, a Sofia, caso para dizer que o mundo é muito pequeno.
** Jantamos e bem num restaurante a 50 metros do albergue, sendo depois horas de ir para o "Ninho". A noite foi um pouco atribulada pois haviam bastantes "motas" a circular, se bem que o Sérgio também fez o favor de partir a cama pelas 04H30, motivo de galhofe àquela hora.
** Ao amanhecer reparamos que chovia e bem, ficamos logo com a moral um pouco em baixo mas o Caminho era para continuar. Despedimo-nos com um até já da malta, depois do pequeno almoço na mesa dos "apóstolos", entretanto já tinha parado de chover pelo que continuamos os dois com a nossa aventura.
** O próximo destino era Valença que atingimos pelas 10H45, sem antes o Sérgio ter furado novamente e ter começado a chover, tornando o terreno mais pesado.
** Deixávamos a nossa rica terrinha para trás, construindo pontes em vez de muros, em direção a Tui.
** O Sérgio resolveu inventar num singletrack cheio de lama e resultado: foi à água, valeu a risada pois não houve sequelas da mesma.
** Chegada a Pontevedra pelas 19H00, ao albergue do peregrino, onde pernoitamos por 5 euros cada, sendo de realçar também as boas condições daquele. As "motas" é que continuaram a perseguir-nos durante a noite, dando cabo do merecido descanso....
** Depois da noite atribulada, resolvemos sair mais cedo (7 horas locais), não chovia mas não havia nada aberto para se alimentar em condições, o que acabou por acontecer mais tarde no "Don Pulpo"
** Baterias recarregadas, alma cheia, seguimos para Briolhos.
** Nesse trajeto, aconselho-vos a fazer um ligeiro desvio do Caminho para visitar as cascatas do Parque Natural da Ria Barrosa, lugar lindíssimo.
** Finda a visita, retomamos a rota, em bom piso e a rolar bastante bem, em direção a Padrón. A ãnsia de chegar ao destino era muito.
** A faltar 24 kms para Santiago, contactamos a nossa "logística", o Vita e a Sofia, para os avisar de que estávamos próximos da Catedral, para eles nos virem buscar. Um bem haja para eles.
** Quase a chegar a Santiago, a inscrição numa parede "Quem resiste, ganha" deu-nos ainda mais força para completar o Caminho, culminando a nossa aventura com a entrada na mítica Praça do Obradoiro, um momento mágico e inesquecível para nós.
** Após o levantamento das nossas Compostelas na oficina do peregrino e da compra de lembranças para os amigos e família, o banho da consagração foi no Seminário Menor, local onde os peregrinos têm tudo à sua disposição (dormitórios, balneários, cantina, lavandaria, cozinha, mercearia...). Fica no entanto um pouco afastado do centro.
** E foi assim a nossa primeira aventura a solo e de bike a Santiago, espero que seja a primeira de muitas e de que tenham gostado do meu relato tanto como nós gostamos de ter vivido e percorrido este Caminho.
Ficam também o álbum das fotos tiradas nos 3 dias e o track completo do Caminho para quem quiser.